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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Radharani, o Lado Feminino de Deus

Giridhari Das

Para devotos@googlegroups.com, amigosdekrishna@yahoogroups.com
Do Blog Volta ao Supremo. Cortesia BBT Brasil. Leia outros artigos em www.voltaaosupremobr.wordpress.com.

Radharani,
o Lado Feminino de Deus


Satyaraja Dasa

O entendimento vaisnava da Verdade Absoluta responde à pergunta: “Deus é masculino ou feminino?”.

A compreensão vaisnava da Verdade Suprema fornece uma resposta satisfatória para a pergunta “Deus é masculino ou feminino?”.

Essência da beleza e da relação,
Quintessência da compaixão e bem-aventurança,
Corporificação da doçura e do brilho,
Epítome da arte, da graciosidade no amor:
Que minha mente se refugie em Radha,
A quintessência de todas as essências.

– Prabodhananda Sarasvati

Minha irmã Carol se tornou uma feminista radical nos últimos anos. Eu acompanhei seu desenvolvimento. Depois de ter devorado um livro após o outro sobre patriarcalismo e sociedades construídas por machistas, ela veio me procurar – seu irmão, que adora um Deus “masculino” –, vítima de filósofos sexistas, ludibriado por homens sem consideração pelas mulheres. Em outras palavras, ela sabia que eu adorava Krsna, que é claramente masculino, e isto era suficiente para ela me colocar em pé de igualdade com aqueles que diminuem as mulheres. Ela ficou um pouco confusa, todavia, quando viu que eu não a contra-ataquei como machista, e, apesar de minha adoração a um Deus masculino, eu não diminuía as mulheres. Ela se deu conta que eu era lúcido demais para ser confrontado diretamente.

“Por que você adora aquele garoto azul Krsna?”, ela perguntou. “Por que você imagina Deus como masculino? Por que não imaginar Deus como feminino?”.

“Bom”, eu respondi rápido e irritado, como se uma conversa de dois minutos pudesse resumir a perspectiva teológica de uma pessoa: “Ele é Deus”. “E além do mais”, eu adicionei, “nós não imaginamos Deus como queremos. Aprendemos sobre Ele a partir das fontes autorizadas, as escrituras, sejam os Vedas, da Índia, ou escrituras ocidentais, como a Bíblia e o Corão”.

“Como você pode saber?”, ela perguntou. “Talvez esses livros estejam enrolando você. Eu diria que Deus teria de ser a mulher suprema, com toda a sensibilidade e elegância que isso implica”.

“Mas isso não é sexismo, apenas vindo da direção oposta?”.

Eu esperei que aquela pergunta a fizesse pensar duas vezes.

“Se, por fim, Deus fosse a mulher suprema, isso não deixaria o homem fora da equação? Não se estaria dizendo que a forma da mulher é melhor do que a forma do homem? Você seria culpada por aquilo que você culpa a religião patriarcal”.

Depois de uma pausa, ela retrucou: “Mas você continua dizendo que Deus é homem...”.

“Primeiramente”, eu a interrompi, “de acordo com a consciência de Krsna, Deus é tanto masculino quanto feminino. Não é uma visão mais igualitária de Deus?”.

“Bom, talvez – se for verdade”, ela disse ainda descrente de uma tradição (e de um irmão) que ela havia se treinado para ver como sexista.

“Veja bem”, eu disse, “Krsna é descrito como Deus na literatura védica porque Ele tem todas as qualificações de Deus. Por que você sabe que o presidente dos Estados Unidos é o presidente? Porque ele tem as qualificações do presidente. Ele tem certas credenciais. Não é que você possa simplesmente ‘imaginar’ que alguém é o presidente e então – puf! – ali está o presidente. Não. Assim, se você estudar Krsna seriamente, você verá que Ele possui todas as opulências: força, beleza, riqueza, fama, conhecimento e renúncia. Qualquer um que tenha todas as essas qualidades em plenitude é Deus”.

Ela estava ficando agitada. Ela já me ouvira falar aquela definição de Deus e pensou que eu estava fugindo do assunto de Deus ser feminino.

“Mas a consciência de Krsna vai além”, eu continuei. “Radharani é a manifestação feminina de Deus. Ela é a mulher suprema. Então, vemos Deus tanto como masculino quanto como feminino”.

A Carol sorriu. Ela tinha uma carta atrás da manga.

“Se vocês reconhecem que Deus é tanto masculino quanto feminino, por que o principal mantra de vocês – aquela oração que você canta o tempo todo – é focado em Krsna, o aspecto masculino de Deus?”.

O “Ela” do Maha-mantra

O que minha irmã não sabia era que o maha-mantra é uma oração primeiro a Radha, e depois a Krsna.

“Você conhece o mantra que eu canto, sobre o qual você está falando?”

Descrição: harekrishnamantraweb

Ela o recitou: “Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare”.

Eu fiquei feliz em ver que ela sabia o mantra.

“Você sabe o que significa Hare?”.

“Não”, ela admitiu.

“É uma forte súplica a Radha. Por ‘Hare’, nós nos referimos à mãe Hara, outro nome de Radha, de forma suplicante. ‘Hare’ é a forma vocativa de ‘Hara’. Basicamente, o mantra está pedindo à mãe Hara, Radha, que ‘por favor, ocupe-me no serviço ao Senhor’”.

“Quer dizer que o cantar de Hare Krsna é uma oração à forma feminina de Deus?”.

“Perfeito”.

Aquilo chamou sua atenção.

“Diga-me uma coisa”, ela disse com sua crescente curiosidade, “o que significa a palavra ‘Radha’?”.

“Significa ‘aquela que melhor adora Krsna’”.

“Aha!”, minha irmã disse com o dedo indicador em riste. “Então Radha não é Deus. Se Ela é a melhor adoradora de Krsna, ela é obrigatoriamente distinta dEle!”.

Descrição: TA0947

“Isso não é verdade”, eu disse. “Deus é a pessoa que faz tudo melhor. Como Krsna diz no Gita, Ele é o primeiro e o melhor em todos os campos. Das montanhas, Ele é o Himalaia; dos corpos d’água, Ele é o oceano, e assim por diante. Então, dos adoradores dEle, Ele também é o melhor – a melhor. Quem poderia adorar Krsna melhor do que Ele mesmo? Ninguém. Dessa maneira, Ele Se manifesta como Radha, Sua forma feminina, e mostra que Ele é Seu melhor adorador. Como Radha, Ele é o Deus adorador, e, como Krsna, Ele é o Deus adorado. Ambos igualmente excelentes”.

“Hmm. Fale-me mais”, ela disse.

“Tudo bem, mas pode ficar um pouco técnico”, eu disse. “Do ponto de vista vaisnava, ou da consciência de Krsna, a energia feminina divina (shakti) implica uma fonte de energia divina (shaktiman). Assim, quando a deusa se manifesta nas várias tradições vaisnavas, ela sempre tem uma contraparte masculina. Sita se relaciona com Rama; Laksmi corresponde a Narayana; Radha com Krsna. Uma vez que Krsna é a origem de todas as manifestações de Deus, Sri Radha, Sua consorte, é a fonte de todas as shaktis, ou energias. Ela é, portanto, a Deusa original”.

“O vaisnavismo pode ser visto como uma espécie de shaktismo, no qual a purna-shakti, a mais completa forma da energia feminina divina, é adorada como o aspecto mais proeminente da divindade, até mesmo eclipsando o Supremo masculino em alguns aspectos. No sri vaisnavismo, por exemplo, Laksmi (uma expansão primária de Sri Radha) é considerada a divina mediatriz, sem a qual o acesso a Narayana não é possível. Em nossa tradição da consciência de Krsna, Radha é aceita como a Deusa Suprema porque Ela controla Krsna com Seu amor. Vida espiritual perfeita só é obtenível por Sua graça”.

“Na tradicional literatura vaisnava, Krsna é comparado ao Sol, e Radha, ao brilho solar. Ambos existem simultaneamente, mas um vem do outro. Ainda assim, dizer que o Sol existe antes do brilho solar é incorreto – tão logo existe Sol, existe brilho solar. E o mais importante: o Sol não tem significado sem brilho solar, sem calor e luz. E calor e luz não existiriam sem o Sol. O Sol e o brilho solar, portanto, coexistem, um igualmente importante para a existência do outro. Pode-se dizer, então, que são simultaneamente unos e distintos. Eles são, em essência, uma única entidade – Deus – que se manifesta como dois indivíduos distintos com o objetivo de se relacionarem interpessoalmente.

“Deixe-me ler algo sobre isso para você no Caitanya-caritamrta [Adi-lila 4.95-98]: ‘O Senhor Krsna encanta o mundo, mas Sri Radha encanta até mesmo Krsna. Assim, Ela é a Deusa Suprema de tudo. Os dois não são diferentes, como evidenciam as escrituras reveladas. E, ao mesmo tempo, são unos, assim como o almíscar e sua essência são inseparáveis, ou como o fogo e seu calor não são diferentes. Enfim, Radha e Krsna são um, embora tenham aceitado duas formas para desfrutarem de um relacionamento”.

“Mas Krsna continua sendo a fonte. Ele é predominante”.

“Apenas em um sentido”, eu disse. “Em termos de tattva, ou ‘verdade filosófica’, Ele é predominante. Em termos de lila, ou ‘divinas atividades amorosas’, entretanto, Radha predomina sobre Ele. E lila é algo considerado mais importante do que tattva”.

Carol estava deslumbrada.

“Eu não tinha a menor ideia de tudo isso”, ela disse.

“Poucas pessoas têm”, eu disse a ela. “É por isso que os devotos trabalham duro na distribuição dos livros de Prabhupada – queremos que este conhecimento seja de todos”.

Carol me prometeu que iria começar a experimentar o maha-mantra e que nunca mais julgaria prematuramente uma religião, especialmente a consciência de Krsna. Também me pediu por uma oração que se focasse na posição suprema de Radharani, algo que ela pudesse cantar para se lembrar de que a consciência de Krsna reconhece – até mesmo enfatiza – uma forma feminina de Deus. Eu pensei por um instante e, então, compartilhei com ela um mantra composto por Bhaktivinoda Thakura, um grande mestre espiritual do começo do século XX:

atapa-rakita suraja nahi jani
radha-virahita krishna nahi mani

“Assim como não há tal coisa como Sol sem calor e luz, eu não aceito um Krsna que está sem Sri Radha!”. (Gitavali, Radhashtaka 8)

Carol estava deslumbrada. Ela me revelou em confidência que há muito orava por uma tradição religiosa que não fosse sexista, que reconhecesse uma forma feminina do Divino. É claro que ela não estava plenamente convencida que Radha era essa religião, mas ela já estava, agora, desejosa de ouvir, já se abrira um pouco à consciência de Krsna. Ela estava inclinada a começar com as práticas de base, como o cantar e a leitura dos livros de Srila Prabhupada. Ali estava uma tradição que finalmente parecia atender a sua demanda, que satisfaria suas necessidades feministas. Radharani era o sonho da minha irmã que se tornava realidade – a resposta a uma prece feminista.

A Melhor das Gopis

Sri Radha é, dentre todas as gopis – vaqueiras namoradas do Senhor Krsna – a original. Ela é capaz de comprazer a Krsna com apenas um olhar de relance. Ainda assim, Radha sente que Seu amor por Krsna pode se tornar sempre mais grandioso, portanto Ela se manifesta como as diversas gopis de Vrndavana, que satisfazem o desejo de Krsna por relacionamentos ricos em variedade (rasa).

Descrição: TA0052

As gopis são consideradas o kaya-vyuha de Sri Radha. Não existe uma palavra nas línguas modernas equivalente a este termo, mas ele pode ser explicado da seguinte maneira: Se uma pessoa pudesse existir simultaneamente em mais de uma forma humana, aquelas formas seriam chamadas o kaya (“corpo”) vyuha (“multiplicidade de”) daquele determinado indivíduo. Em outras palavras, é a mesma pessoa, mas ocupando diferentes espaços e tempos com diferentes humores e emoções. Como a única razão da existência de Radha e Krsna é a troca de sentimentos amorosos, as gopis existem para auxiliá-lOs nesse amor.

Descrição: TA0022

As gopis são divididas em cinco grupos, o mais importante sendo o parama-preshtha-sakhis, as oito gopis primárias: Lalita, Vishakha, Citra, Indulekha, Campakalata, Tungavidya, Rangadevi e Sudevi. Muitos detalhes de suas vidas e serviço – incluindo a idade, o humor, o aniversário, temperamento, instrumento, cor da pele, nome dos parentes, melodia favorita, melhores amigas e outras informações de cada uma delas – são descritos nas escrituras vaisnavas. Esses elementos formam a substância de uma meditação interna, ou sadhana, projetada de forma a levar o devoto para o reino espiritual. Através desta meditação, gradualmente se desenvolve prema, amor por Krsna. Essa forma avançada de contemplação, todavia, deve ser feita apenas por devotos avançados sob a guia de um mestre autêntico. Tal nível é raramente alcançado. É, portanto, recomendado que se pratique o cantar do santo nome e que se aceite o caminho regulado de vaidhi-bhakti – ou a prática da devoção sob estritas regras e regulações – como é ensinado no movimento para a consciência de Krsna. Assim se alcançará naturalmente o nível mais elevado de consciência espiritual.

A tradição vaisnava na linha do Senhor Caitanya vê, claramente, o amor das gopis como amor transcendental da mais alta estirpe, retaliando acusações de sexualidade mundana com claras definições distinguindo luxúria e amor. Assim como o conceito da Noiva-de-Cristo na tradição cristã e o conceito cabalístico do Divino Feminino do misticismo judaico, a verdade por trás do amor das gopis é de profunda natureza teológica e constitui o zênite da compreensão espiritual. O amor das gopis representa o amor mais puro que uma alma pode ter por sua origem divina; a única relação que tal amor talvez tenha com a luxúria mundana é a aparência, aparência esta que é desfeita tão logo se estude os livros deixados pelas autoridades puras e autorrealizadas acerca destes tópicos tão queridos ao coração.


Leia mais sobre Radharani e as gopis nas obras:

Descrição: file_44  Descrição: file_1_16

Veja mais pinturas de Radharani em:

Descrição: kcom-logo

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Radharani - O Aspecto Feminino de Deus


Dia 15 de Setembro 'aniversário' de Srimati Radharani

Radharani - O Aspecto Feminino de Deus

Por Satyaraja Dasa

Traduzido por Bk. Carlos Henrique (Teresópolis)

Essência de beleza e relação,

Quintessência de bem-aventurança e compaixão,

Corporificação da doçura e esplendor,

Síntese da astúcia e graciosidade no amor:

Possa minha mente refugiar-se em Rhada,

Quintessência de todas as essências.

- Prabodhananda Sarasvati

Nos últimos anos, minha irmã Carol tornou-se uma feminista radical. Eu acompanhei este processo. À medida que devorava livro após livro sobre os fracassos do patriarcado e das sociedades dirigidas por homens, ela passou a ver-me – a seu irmão que era devoto de um Deus “masculino” – como uma vítima dos filósofos sexistas, ludibriado por homens com pouco respeito pelas mulheres. Em outras palavras, ela sabia que eu era devoto de Krishna, que certamente é um homem; isto era suficiente para colocar-me no grupo daqueles que menosprezavam as mulheres. No entanto, Carol sentia-se confusa por perceber que eu não costumava usar frases machistas de duplo sentido, que apesar da minha devoção a um Deus masculino eu era justo e sensato, pois não depreciava as mulheres. Ela concluiu que eu era bastante inteligente para confrontar-me diretamente.

“Por que você é devoto deste rapazinho azul, Krishna?”, ela perguntou. “Por que afinal ver Deus como homem? Por que não imaginar Deus como mulher?”

“Bem”, eu respondi rapidamente sentindo-me incomodado, como se uma conversa de dois minutos pudesse resumir a perspectiva teológica de alguém, “Ele é Deus.” “Além disto”, acrescentei, “nós não ‘imaginamos’ Deus ao nosso próprio gosto. Aprendemos sobre Ele em fontes autorizadas, as escrituras, sejam os Vedas da Índia, ou as escrituras do ocidente como a Bíblia ou o Alcorão.”

“Mas como você tem certeza?”, ela perguntou. “Pode ser que estes livros estejam enganados. Eu diria que Deus deveria ser a mulher suprema, com toda a sensibilidade e educação que isto implica.”

“Mas isto não seria sexismo, direcionado em sentido oposto?”

Eu esperava que minha pergunta a fizesse pensar duas vezes.

“Enfim, se Deus é a mulher suprema, isto não deixaria os homens fora da equação? Isto não seria o mesmo que dizer que a forma feminina é melhor do que a masculina? Você seria acusada pelo mesmo erro que atribui à religião patriarcal.”

Depois de uma pausa, ela replicou:

“Mas você ainda diz que Deus é masculino...”

Interrompendo sua fala, afirmei:

“Antes de qualquer coisa, de acordo com a consciência de Krishna, Deus é masculino e feminino. Esta não seria uma visão mais igualitária de Deus?”

“Bem, pode ser – se isto for verdade”, ela acrescentou, ainda céptica quanto a uma tradição (e ao seu irmão) que ela tinha sido treinada a ver como sexista.

“Veja”, eu disse, “Krishna é descrito como Deus na literatura Védica porque Ele tem todas as qualificações de Deus. Como você sabe que o Presidente dos Estados Unidos é o presidente? Porque ele tem as qualificações do Presidente. Ele tem algumas credenciais. Você não pode simplesmente ‘imaginar’ que alguém é presidente e então – puff! – ele é o Presidente. Não. Assim, se você estudar Krishna cuidadosamente, verá que Ele tem todas as opulências em plenitude: força, beleza, riqueza, fama, conhecimento e renúncia. Qualquer pessoa que tiver todas estas qualidades em plenitude é Deus.”

Carol estava ficando inquieta. Antes, já tinha ouvido esta definição apresentada por mim e achava que eu estava fugindo do assunto de ver Deus como mulher.

“Mas a consciência de Krishna vai além”, continuei. “Radharani é a manifestação feminina de Deus. Ela é a mulher suprema. Portanto, entendemos Deus como homem e mulher.”

Carol sorriu. Ela tinha algo escondido sob a manga.

“Se você aceita que Deus é homem e mulher, por que seu mantra principal – esta oração que você fica cantando o dia inteiro – realça Krishna, o aspecto masculino de Deus?”

O “ELA” DO MAHA-MANTRA

O que minha querida irmã não sabia era que o maha-mantra é uma oração primeiro a Radha, depois a Krishna.

“Você conhece o mantra que eu canto, este ao qual você se referiu?”

Ela recitou: “Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.”

Fiquei satisfeito por saber que ela o conhecia.

“Você sabe o que significa Hare?”

“Não”, ela admitiu.

“É uma súplica vigorosa a Radha. Ao cantarmos “Hare”, suplicamos à Mãe Hara, que é um outro nome de Radha. Hare é a forma vocativa de Hara. Basicamente, o mantra chama pela Mãe Hara, ou Radha. ‘Por favor, aceita-me no serviço ao Senhor’”.

“Você quer dizer que o mantra Hare Krishna é uma oração ao aspecto feminino de Deus?”

“De forma alguma.”

Isto lhe chamou a atenção.

“Diga-me”, ela disse, cada vez mais curiosa, “o que significa a palavra Radha?”.

“Significa ‘a melhor devota de Krishna’”.

“Aha!”, minha irmã acrescentou com ar sarcástico. “Então, Radha não é Deus. Se Ela é a melhor devota Krishna, então certamente é diferente d’Ele!.”

“Isto não é verdade”, eu disse. “Deus é a pessoa que melhor faz tudo. Como Krishna afirma no Gita, Ele é o primeiro e melhor em todas as áreas. Entre as montanhas, Ele é o Himalaia, dentre os mares Ele é o oceano, e assim por diante. Portanto, dentre os seus devotos, Ele também é o melhor. Quem poderia melhor reverenciá-lo, senão Ele próprio? Ninguém. Assim sendo, Ele manifesta-se como Radha, seu aspecto feminino, demonstrando que Ele é o melhor devoto de si próprio. Como Radha, Ele é o Deus devoto, como Krishna Ele é o Deus a quem se devota, ambos por excelência.”

“Humm... Fale-me mais”, ela disse.

“Ok, mas isto pode ficar um pouco técnico”, eu disse. “De acordo com o ponto de vista Vaishnava, ou consciência de Krishna, a energia feminina divina (shakti) pressupõe uma fonte de energia divina (shaktiman). Assim, como se evidencia nas várias tradições Vaishnavas, a Deusa sempre tem uma contraparte masculina. Sita relaciona-se com Rama; Laksmi corresponde a Narayana; Radha com Seu Krishna. Como Krishna é a fonte de todas as manifestações de Deus, Sua consorte é a fonte de todas as shaktis, ou energias. Portanto, Ela é a Deusa original”.

“O Vaishnavismo pode ser entendido como um tipo de shaktismo, no qual purna-shakti, ou a forma mais completa da energia feminina divina, é reverenciada como o aspecto principal da divindade, eclipsando até mesmo o Supremo masculino sob alguns aspectos. Por exemplo, no Shrivaishnavismo, Laksmi (uma expansão primária de Sri Radha) é considerada o mediador divino, sem o qual não se pode ter acesso a Narayana. Em nossa tradição da consciência de Krishna, Radha é reconhecida como a Deusa suprema, porque Ela controla Krishna com Seu amor. A perfeição da vida espiritual não pode ser conseguida sem Sua graça”.

“Na literatura Vaishnava tradicional, Krishna é comparado ao sol e Radha ao brilho solar. Ambos existem simultaneamente, mas um provém do outro. Ainda assim, estaríamos errados se disséssemos que o sol existe antes do brilho solar – pois logo que o sol aparece, surge seu brilho. O mais importante é que o sol não tem sentido sem seu brilho, sem calor e luz. Por outro lado, não existiriam calor e luz sem sol. Portanto, o sol e seu brilho coexistem, cada qual sendo igualmente importante para a existência um do outro. Pode-se dizer que são, ao mesmo tempo, iguais e diferentes.”

“Da mesma forma, a relação entre Radha e Krishna é de identidade inconcebível na diferença. Em essência, ambos são uma entidade única – Deus -, que se manifesta sob a forma de duas pessoas diferentes para que haja troca interpessoal”.

“Deixe-me ler algo sobre isto no Caitanya-caritamrta [Adi-lila 4.95-98]: ‘O Senhor Krishna encanta o mundo, mas Sri Radha encanta até Ele próprio. Portanto, Ela é a Deusa suprema de todos. Sri Radha é o poder pleno e Krishna é o detentor de todo o poder. Os dois não são diferentes, como se evidencia nas escrituras reveladas. Na verdade, ambos são o mesmo, assim como o almíscar e seu perfume são inseparáveis, ou o fogo e seu calor são indistinguíveis. Desta forma, Radha e Krishna são um, embora tenham assumido duas formas para desfrutar de uma relação.’”

“Apesar disto, Krishna ainda é a fonte. Ele predomina.”

“Apenas em certo sentido, acrescentei. “Em termos de tattva, ou ‘verdade filosófica’, Ele predomina. Mas em termos de lila, ou “atividade amorosa de Deus’, Radha predomina sobre Krishna. E lila é considerada mais importante do que tattva.

Carol estava fascinada.

“Eu não fazia idéia”, afirmou.

“Poucas pessoas fazem”, disse-lhe. “Esta é a razão pela qual os devotos trabalham duro para distribuir os livros de Prabhupada – queremos que este conhecimento chegue às pessoas.”

Carol prometeu-me que começaria a experimentar o maha-mantra e nunca mais julgaria precipitadamente uma religião, especialmente a consciência de Krishna. Além disto, pediu-me uma oração que enfatizasse a posição suprema de Radharani, algo que pudesse cantar para se lembrar que a consciência de Krishna reconhece – e até mesmo enfatiza – o aspecto feminino de Deus. Pensei por um momento e, então, ensinei-lhe um mantra composto por Bhaktivinoda Thakura, que foi um grande mestre espiritual do início do século XX.

atapa-rakita suraja nahi jani

radha-virahita krsna nahi mani

“Assim como não pode haver sol sem calor ou luz, não aceito um Krishna que não tenha Sri Radha!” (Gitavali, radhastaka 8).

Carol ficou emocionada e confidenciou-me que há muito tempo aspirava por encontrar uma tradição religiosa que não fosse sexista, que reconhecesse uma forma feminina da Divindade. Evidentemente, ela não estava totalmente convencida de que isto era assim, mas agora desejava escutar, dar uma chance para a consciência de Krishna. Ela queria começar com algumas práticas rudimentares, por exemplo, cantar e ler os livros de Srila Prabhupada. Eis uma tradição que finalmente parecia atender às expectativas, ou seja, satisfazer suas necessidades como feminista. Radharani era o sonho de minha irmã, que se tornou realidade – uma resposta à prece de uma feminista.

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